quarta-feira, 16 de maio de 2018

Da Lagoinha ao Mangabeiras: Panorâmica exibe documentários sobre bairros de BH

O programa Panorâmica, da TV Universitária, começou a exibir nesta terça-feira 15/5/18 uma série de documentários produzidos por alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMG sobre diferentes bairros da capital mineira. Segundo o saite da UFMG https://ufmg.br/comunicacao/noticias/panoramica-exibe-documentarios-sobre-bairros-de-belo-horizonte, o objetivo é refletir sobre o crescimento acelerado de Belo Horizonte desde sua fundação. "Novas comunidades e, consequentemente, novos bairros surgiram nesse processo de urbanização. A cidade planejada no fim do século 19 -- e que em pouco tempo ultrapassou os limites da Avenida do Contorno -- continua sendo transformada por seus cidadãos."
O primeiro documentário focaliza o Bairro Mangabeiras. Realizado por Bruna Faria, Giulia Giarola, Isabella Morais e Leonardo Salvaterra, o filme explora a arquitetura do bairro com movimentos de câmara panorâmicos, enquadramentos de lugares icônicos, como a Praça do Papa e o Parque das Mangabeiras, e travelings dinâmicos pelas longas avenidas do bairro residencial.
Em seguida, o programa exibe documentário sobre a Lagoinha, produzido pelos estudantes Gabriel Leite, Luisa Lessa, Maria Clara Freitas e Pedro Lopes. Os moradores analisaram as transformações sofridas pelos entornos do bairro e como isso afetou diretamente a rotina da comunidade. Os depoimentos trazem, inclusive, reivindicações dos cidadãos, conferindo ao filme certo teor crítico. Ana Luisa Sales, Maria Elena Mattore, Raíssa Martins e Raquel Siman produziram um curta sobre o Bairro Concórdia, com viés histórico e cultural. O curta documenta a presença do congado na comunidade.
O Buritis, um dos mais novos da capital, é abordado na produção de Marco Antônio Benin, Júlio Andrade, Samuel Lorenzato e Giovana Lemos. O filme reúne impressões de adolescentes, jovens e adultos, retratando com pluralidade o cotidiano de seus moradores.
O último filme aborda o bairro Cidade Ozanam por meio de relatos de moradores. A produção é de Bernardo Duarte, Felipe Hardy, João Pedro Fernandes e Júnia Corradi.
O programa Panorâmica tem reprise na quarta e na sexta, às 19h30, e no sábado, às 20h. O Canal Universitário é o 12, da NET, e 14, da Oi TV.
Teaser: roteiro e direção: Ana Fatorelli; produção: Otávio Alves; direção de imagem: Márcia Milagre; imagens: Cássio de Jesus e Gabriel Santana; edição: Márcia Botelho.

Por um jornalismo de esquerda melhor do que o jornalismo de direita

Uma das limitações da esquerda (brasileira?) é não conseguir acompanhar tudo que acontece na sociedade. Fica limitada à política, à economia e a si mesma.
E a reuniões e mais reuniões, e a discursos sempre iguais, repetição de chavões. Era assim nos anos 70, quando fui militante, e certamente melhorou, mas acabou? Pelo menos em certas coisas não. Uma delas é a pauta jornalística.
O jornalismo supera essa limitação da esquerda, ao falar de tudo, ao não ter limitações de pauta, ao ver que "tudo é notícia". Mas o jornalismo é capitalista!
Por ser capitalista, o jornalismo de direita tem limitações.
O jornalismo de gabinete limita a pauta, quando fica olhando para si mesmo e para os outros, "os concorrentes", e daí todo mundo faz as mesmas matérias. O jornalismo globaetc. é limitado porque só vê o mundo oficial -- o modelo típico são os jornalões -- e o mundo dos ricos -- o modelo típico é o das vejinhas, que se espalhou por outras revistas e jornais.
Mas eu quero falar do jornalismo de esquerda. O jornalismo de esquerda precisa ser melhor do que o jornalismo de direita, assim como a política de esquerda e os políticos de esquerda precisam ser melhores do que a política e os políticos de esquerda.
Porque a esquerda quer melhorar o mundo para a maioria, enquanto a direita, preservando privilégios da minoria, faz o mundo ficar pior -- pelo menos para a maioria.
Simples assim. Mas a esquerda precisa fazer melhor para ser uma alternativa de um mundo melhor.
Esta é a questão mais difícil para a esquerda entender, eu acho.
No jornalismo, por exemplo. Como é que a esquerda pode ser uma alternativa de um mundo melhor, no jornalismo, se faz um jornalismo pior?
Ainda hoje, com toda a deterioração do PIG, toda a esquerda continua, ela própria, lendo o globoetc.
Por quê? Porque todos precisamos desses jornais (e suas versões na internet) para nos informarmos. Se o sujeito que quer se informar ficar somente na leitura dos blogs etc., estará mal informado. Sem falar que grande parte dos blogs de esquerda, em grande parte, reproduz e comenta notícias dos jornalões. Estes são, portanto, ainda, com toda a sua decadência, melhores do que os veículos alternativos.  
Não basta apresentar outro ponto de vista, o ponto de vista dos excluídos pela grande imprensa. A esquerda precisa produzir um jornalismo melhor.
É difícil? Sim, não é fácil. Faltam recursos? Sim, falta dinheiro. Mas esse deve ser o esforço, de produzir um jornalismo melhor do que o jornalismo de direita.
A esquerda não pode ficar limitada a reproduzir e comentar o jornalismo da direita, nem a produzir noticiário só sobre a própria esquerda e temas específicos. 
O que serve para o jornalismo em geral serve para o jornalismo de esquerda. Todo bom jornalista sabe que as notícias estão nas ruas.
É preciso cobrir tudo, escrever sobre tudo, perambular pela sociedade, descobrir coisas, contar histórias. 
O jornalismo de esquerda é limitado porque só vê política, economia e "luta". A sociedade é muito mais do que isso.
Fazer jornalismo deve ser narrar o que as pessoas -- todas as pessoas, de todas as classes sociais, todas as áreas, em todas as partes da cidade, das cidades, do estado, do país, do mundo -- estão fazendo, seus hábitos, seus interesses etc.
O que vai tornar o jornalismo de esquerda melhor do que o jornalismo da direita é superar os limites deste, isto é: não fazer jornalismo oficial, não falar só dos ricos, não excluir os pobres, não excluir minorias, não censurar temas. Ter compromisso com o leitor, com a diversidade, com a liberdade -- a começar pela liberdade de expressão --, com a justiça, com a igualdade, com a democracia.

Um saite curioso, um livro, o caos ortográfico e a imprensa

Um saite local, curioso, que eu não conhecia: http://moonbh.com.br/baixo-lourdes-um-lugar-pra-comer-ate-morrer-sem-pagar-muito-caro-em-bh/. Pela novidade e pelo "Baixo Lurdes", que eu também não conhecia

OBS: Lurdes, não Lourdes. Leio no ótimo livro "A imprensa e o caos na ortografia", do Marcos de Castro, veterano jornalista carioca, do JB e outras publicações, que o grande jornal brasileiro, falecido e renascido, responsável pela modernização do jornalismo no país, nos anos 70, começou também, duas décadas depois, essa coisa horrorosa que foi recuperar a ortografia arcaica. Pois é. Desde 1943, com a reforma ortográfica, o Brasil escrevia, por exemplo, Darci, e não Darcy. Mas o general Golberi, todo poderoso da ditadura, reclamou que seu nome era com y. E o Elio Gaspari, editor de política, amigão dele (sua tetralogia sobre a ditadura foi baseada nos arquivos de Golberi e Geisel, os dois herois da redemocratização, segundo o jornalista, desmascarados, na semana passada pela divulgação de documentos da CIA), levou o pleito à direção do jornal, que o acatou. E abriu a porteira, aos poucos arrombada, como notou um experiente redator da época. Logo, para ficar no exemplo acima, Lurdes voltou a ser Lourdes. Eu, que entrei no JB em 86, já peguei o retrocesso em vigor: devia-se saber a grafia dos nomes dos entrevistados, em vez de seguir a lei ortográfica. Agora que sei, resolvo um problema que sempre me incomodou e adiro (sim, existe adiro, fui ao dicionário), ainda que tarde, à lei modernizante de 1943.

sábado, 12 de maio de 2018

Todo mundo deve ver essa entrevista do Guilherme Boulos

A entrevista do Guilherme Boulos no roda morta é um retrato do golpe. A direita -- representada pelo apresentador, por um cientista político de quinta categoria, um empresário inexpressivo e dois jornalistas do PIG -- é destruída no debate. Todas as perguntas são provocações de baixo nível e o Boulos responde com informações e afirmações inquestionáveis.
A consequência -- no programa e na política brasileira -- é que a direita perde o debate e perde a eleição. Por isso apela para o baixo nível, para a conspiração, para o golpe, para o autoritarismo, para a repressão.
A direita brasileira e a democracia são incompatíveis.
A entrevista me provoca dois sentimentos opostos.
O primeiro é de esperança, porque fica claro que a esquerda avançou nos últimos anos e que temos um candidato e um partido que defendem a democracia, no sentido verdadeiro da palavra, que é o empoderamento do povo e a construção de uma sociedade igualitária, justa, com liberdade.
O segundo é que, justamente por isso, e porque a direita brasileira é incapaz de conviver com a democracia, talvez estejamos próximos de um golpe dentro do golpe, de um AI-5, de uma ditadura feroz, para destruir esse empoderamento popular inegável que o governo de conciliação de classes do PT gerou.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O Judiciário brasileiro é ocupado por uma casta

Quatro anos depois de começarem a destruir o país, dois anos depois de derrubarem o governo, um mês depois de prenderem o melhor presidente em meio século, às vésperas de uma eleição que não sabemos se haverá, finalmente uma reportagem mostrando quem são os sujeitos de um dos braços do golpe.
O Brasil não é só um país capitalista com empresários servis ao capital internacional, é também um país de castas que controlam os serviços públicos e os poderes da República. Para virar uma democracia, vai ter de acabar com os privilégios de muita gente.

Matéria da Agência Pública


Entrevista
Integrantes da Lava Jato vivem na “mesma bolha”, diz pesquisador da UFPR

O sociólogo Ricardo Oliveira, que pesquisou as biografias de magistrados, procuradores e advogados da operação, diz que eles têm as mesmas origens, às vezes se conhecem desde a infância e por isso atuariam em rede

9 de Maio de 2018
Amanda Audi

    Para pesquisador, força-tarefa é composta por “herdeiros da velha elite estatal”.
    Dinastia do Judiciário no Paraná inclui conexões com advogados e políticos
    Rosângela Moro, advogada e esposa do juiz, pertence ao clã de Beto Richa e Rafael Greca 



Para o professor de sociologia Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os integrantes da Lava Jato (incluindo magistrados, procuradores e advogados) operam em um circuito que chama de “fechado” e que funcionaria “em rede”.

O professor comanda um grupo de pesquisa chamado “República do Nepotismo”, que utiliza a técnica da prosopografia (biografia coletiva de determinado grupo social ou político) para demonstrar que pessoas como Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e advogados ligados às delações são herdeiros de figuras do Judiciário e da política paranaenses. O estudo será apresentado na segunda quinzena deste mês.

“Eles se conhecem muitas vezes desde a infância, porque os pais já se conheciam. Frequentaram as melhores escolas, universidades, têm sociabilidade em comum. Quer dizer, vivem na mesma bolha. Têm as mesmas opiniões e gostos políticos e ideológicos. E todos têm conexão com a indústria advocatícia, com os grandes escritórios jurídicos”, afirma.

Leia os principais trechos da entrevista.
 

Reprodução: Equipe Lava Jato MPF. Equipe da Lava Jato

Quais as principais conclusões do estudo que o sr. desenvolve na UFPR?

Em primeiro lugar, quando a gente pensa na magistratura brasileira e do Paraná, sempre se deve entendê-la como unidades de parentesco. São famílias ao mesmo tempo jurídicas e políticas, uma unidade que sempre opera em rede. Não existe aquela figura, como alguns imaginam, de pessoas que são “novas”, ou “emergentes”, ou “renovadoras”. Os resultados mostram que são todos herdeiros de uma velha elite estatal.

Isso inclui os integrantes da Lava Jato?

Sim, o juiz Sérgio Moro e todo mundo, temos todos os documentos. É uma elite estatal hereditária porque eles apresentam parentescos no sistema judicial bastante significativos. Não apenas parentesco, mas também relações matrimoniais, de amizade e de sociabilidade. Há também a dimensão do corporativismo. Se forma um grande circuito formativo ideológico, de convivência, que tem determinados padrões e valores hereditários. O próprio Sérgio Moro, uma figura central, filho de um professor universitário, tem como primo um desembargador, o Hildebrando Moro. Ter um parente no Tribunal de Justiça, para os códigos internos, faz muita diferença. Na nossa interpretação, é um sistema pré-moderno. Ele não funciona através de regras impessoais ou de aspectos técnicos, mas com muito poder pessoal. De modo que o ator, na magistratura, tem uma capacidade incrível de determinar a agenda, a temporalidade dos processos, no sentido de escolher os que quer acelerar e aqueles que serão adiados.”

Existe relação de proximidade entre magistrados, procuradores e advogados da Lava Jato?

Sim, é o mesmo circuito. Tem o caso da esposa do Moro, a Rosângela Maria Wolff Quadros, que é advogada. Ela está situada dentro do clã da família Macedo, genealogia extremamente importante no Paraná, que atinge atores nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e no empresariado. Como Rafael Greca de Macedo [prefeito de Curitiba], o Beto Richa [governador do Paraná licenciado] e um conjunto de empresários e desembargadores do Tribunal de Justiça. Até se usa o termo “Macedônia”, dada a importância da família Macedo. E a família Wolff é típica do poder local de São Mateus do Sul [interior do Paraná], é uma estrutura que vem da República Velha, do coronelismo. Ela, como advogada, tem relações profissionais com a Apae. E aí há uma conexão direta com a família Arns. Flávio Arns foi senador, vice-governador, ator de atividades assistenciais. E com o advogado Marlus Arns de Oliveira, que é sobrinho do Flávio Arns.

Qual a relação entre eles?

É uma relação profissional [da esposa de Moro] com a família Arns e com as Apaes. Eles trabalharam juntos com as Apaes. O Marlus Arns é advogado de muitos acusados da Lava Jato nas delações premiadas. Chegou até a defender Eduardo Cunha. Em matérias da imprensa sobre advogados amigos do Sérgio Moro, como o Carlos Zucolotto, e as questões sobre Rodrigo Tacla Duran, mostra a partir do casal uma indústria jurídica da Lava Jato, em que muitos dos principais advogados da Lava Jato têm relações próximas com os operadores.

Quais casos foram identificados pelo grupo de pesquisa?

O do procurador Diogo Castor de Mattos, que era filho do falecido procurador Delívar Tadeu de Mattos. Ele foi casado com Maria Cristina Jobim Castor, que era irmã de Belmiro Valverde Jobim Castor, que foi empresário, secretário de Estado, do Bamerindus, um nome muito importante na política. No escritório da família, o Delívar de Mattos & Castor, trabalha um irmão do procurador, que se chama Rodrigo Castor de Mattos. Ele foi advogado do marqueteiro João Santana. É mais uma relação direta de parentesco, que corrobora que é uma indústria advocatícia da Lava Jato muito próxima dos seus protagonistas.

Há situações parecidas com outros integrantes da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba?

O Carlos Fernando dos Santos Lima é filho de Osvaldo Santos Lima, que foi procurador, deputado estadual da Arena e presidente da Assembleia Legislativa do Paraná em 1973. Ele também tem dois irmãos no Ministério Público. A esposa dele teve relação com o Banestado [banco paranaense que deu origem a escândalo de corrupção nos anos 1990 e Carlos Fernando investigou]. O Deltan Dallagnol é filho do ex-procurador Agenor Dallagnol. Ele passou no concurso sem ter os dois anos de formado, o pai foi o advogado [na apelação da União, em que a Justiça deu vitória ao procurador] . Todos os operadores da Lava Jato também são extremamente conservadores e têm perfil à direita, semelhante aos seus parentes que faziam parte do sistema na ditadura. Naquela época, seus pais eram gente do establishment. E eles herdam a mesma visão de mundo. É uma elite social, política e econômica.

Os integrantes da Lava Jato vivem em um meio comum?

Sim, eles se conhecem muitas vezes desde a infância, porque os pais já se conheciam muitas vezes. Eles frequentaram as melhores escolas, universidades, têm sociabilidade em comum. Quer dizer, vivem na mesma bolha. Têm as mesmas opiniões e gostos políticos e ideológicos. E todos têm conexão com a indústria advocatícia, com os grandes escritórios jurídicos que atuam no sistema judicial.

Na pesquisa, o sr. ouviu falar sobre advogados que conseguem acordos de delação com a Lava Jato fazerem parte de um mesmo grupo?

É exatamente o que os resultados revelam, porque alguns principais advogados da indústria da delação são nomes com conexão com as famílias da Lava Jato.

O mesmo se aplica aos tribunais superiores na Lava Jato?

O circuito é o mesmo quando você analisa o Tribunal Regional Federal da 4ª Região [TRF-4]. Tem o João Pedro Gebran Neto, neto do ex-diretor-geral da Assembleia Legislativa do Paraná. Ele vem de uma das mais tradicionais famílias da Lapa, de onde sai boa parte das famílias que dominam a política paranaense nos anos 1970. Victor Luiz dos Santos Laus é bisneto do fundador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, presidente do TRF-4, é neto do desembargador ministro Thompson Flores, que foi do Supremo Tribunal Federal (STF) durante a ditadura militar, uma das principais genealogias do Rio Grande do Sul. O ministro Felix Fischer, mesmo sendo alemão, é casado com uma procuradora de Justiça do Paraná aposentada. Ele tem três filhos no Judiciário paranaense. Depois, no STF, temos o Edson Fachin, que tem a mesma dinâmica familiar. É casado com uma desembargadora do Tribunal de Justiça do Paraná. A filha dele é advogada do escritório Fachin Advogados Associados e é casada com Marcos Alberto Rocha Gonçalves, filho de Marcos Gonçalves, executivo do grupo J&F, da família dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Há um verdadeiro circuito que começa no Moro e vai até o Fachin. Todos com o mesmo perfil: família, ação política, conexões empresariais, com escritórios advocatícios, ideologia propensa à direita, de uma elite estatal muito antiga que opera em redes familiares.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Jornalistas brasileiros não têm liberdade de expressão

O jornalista Paulo Zocchi, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo, publicou na Revista de Jornalismo ESPM um artigo excelente no qual demonstra de forma irrefutável o que está escrito no título acima. É urgente que a sociedade brasileira conheça essa realidade, é urgente que os jornalistas discutam o assunto. O artigo é longo, ocupa seis páginas da revista, razão pela qual não vou abordá-lo de forma minuciosa, mas destacar os pontos que considero essenciais e acrescentar meu ponto de vista.

Antes, algumas palavras sobre a revista.

A ESPM – não confundir com a ESPN, a emissora de esportes americana, que mantém canais por assinatura no Brasil, num nível de qualidade muito acima da televisão brasileira – é a Escola Superior de Propaganda e Marketing, tradicional instituição paulistana. Ela publica a Revista de Jornalismo ESPM, que está no seu número 21 (janeiro-junho de 2018), com periodicidade semestral, e tem os seguintes subtítulo e lema: “Edição brasileira da Columbia Journalism Review. Imprensa livre, democracia forte”.

Essa ligação com uma instituição americana, se deixa o leitor com a pulga atrás da orelha, é certamente um dos motivos da qualidade da publicação, incomum no Brasil. Aqui, as publicações ou são para público amplo e superficiais, ou são acadêmicas e chatas. Uma exceção é o Le Monde Diplomatique, também com inspiração estrangeira, no caso francesa. Com a internet, esse quadro vem mudando, mas entre veículos impressos se mantém. A edição nº 21 da Revista de Jornalismo da ESPM (é preciso escrever assim, por extenso, porque a ESPM tem outra revista) trata de diversos assuntos fundamentais para a prática do jornalismo no Brasil. Eu me pergunto quantos jornalistas a leram. Não conheço ninguém que tenha esse hábito (de resto, o leitor comum talvez se surpreenda ao saber que grande parte dos jornalistas lê pouco), e eu mesmo só tenho acesso à revista por acaso.

Mas meu assunto não é a revista de jornalismo da ESPM (que merece também outros textos, sobre outros dos seus artigos) e sim o artigo fundamental do presidente do sindicato dos jornalistas paulistas. Começo pelas revelações mais estarrecedoras. Zocchi nos conta que as principais empresas jornalísticas do país recomendam formalmente aos seus empregados jornalistas que não expressem suas opiniões e até proíbem que eles tenham militância política.

As principais empresas citadas por Paulo Zocchi são: Folha de S. Paulo, Editora Abril e TV Globo. A recomendação formal é feita por meio de orientações por escrito, guia interno e comunicados.

O Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo (Sertesp) confirma essa posição patronal ao se recusar a incluir na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) uma “cláusula de consciência”, pela qual o jornalista tem direito de se recusar a fazer matérias que firam o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.

O fato mais recente que chamou atenção para essa prática foi a demissão do repórter Diego Bargas pela Folha, em outubro de 2017.

Bargas foi demitido no mesmo dia em que a Folha publicou matéria sua com o título “Criado por Danilo Gentili, comédia juvenil ri de bullying e pedofilia”. A matéria foi atacada nas redes sociais pelo comediante e alguns dos seus milhões de seguidores, que acusaram o repórter de ser “militante do PT”. Usaram para isso publicações de Bargas nas suas páginas nas redes sociais. E a acusação foi o pretexto do jornal para demiti-lo, pois, de acordo com orientação da direção de redação “sobre ações em redes sociais”, datada de 8 de setembro de 2015, “o jornalista da Folha deve evitar: manifestar posições político-partidárias; emitir juízos que comprometam a independência ou prejudiquem a imagem da Folha”.

A Editora Abril afirma no seu guia interno que “considera a militância política do jornalista como desaconselhável” e a proíbe para jornalistas de política e economia. Determina ainda que “o jornalista não deve escrever em sua página nas redes sociais ou blogs nada que não escreveria nos títulos da Abril”.

E a Globo? A gigante da comunicação – esse polvo presente em todos os lugares, como não é permitido a nenhuma outra empresa do ramo em nenhuma outra grande nação, nem nos EUA, nem na Europa – definiu em comunicado recente, citado por Zocchi: “[a] participação de jornalistas do Grupo Globo em plataformas da internet e blogs pessoais, redes sociais e sites colaborativos deve levar em conta que os jornalistas são, em grande medida, responsáveis pela imagem dos veículos para os quais trabalham e, por isso, devem evitar em suas atividades públicas tudo aquilo que possa comprometer a percepção de que exercem a profissão com isenção e correção”.

Donos de jornais e revistas e concessionários de emissoras de televisão e rádio no Brasil não apenas são uma pequena elite que controla os meios de comunicação no país – como é sabido e confirmam diversas pesquisas, a mais recente e abrangente delas da organização internacional Monitor de Propriedade de Mídia, que pode ser lida no link https://brazil.mom-rsf.org/br/. Eles também se comportam em relação aos seus empregados como os latifundiários se comportavam em relação aos escravos: como propriedades suas. Assim, como propriedade, jornalista não tem opinião, sua função é expressar a opinião do seu patrão.

Mais estarrecedor ainda é constatar que tal opinião não se limita a uma parcela do empresariado e nem mesmo a todo empresariado. Ela atinge o Estado e é expressa por magistrados. Conforme citado no artigo de Paulo Zocchi, o ministro Emmanoel Pereira, do Tribunal Superior do Trabalho, ao se pronunciar contra a “cláusula de consciência”, no dissídio coletivo dos funcionários da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), em 2016, afirmou, que, se fosse proprietário de um jornal e decidisse criticar um prefeito, ordenaria a um de seus jornalistas que o fizesse em reportagem, e ele, como empregado, teria a obrigação de obedecer.

Por que será que não nos espantamos com isso? De fato, o caso hipotético citado pelo ministro do TST faz parte do cotidiano do jornalista brasileiro.

Diz o ditado que o pior cego é o que não quer ver. Às vezes eu tenho impressão de que o jornalista não quer ver a realidade que envolve sua profissão, na qual sua liberdade é limitada pela liberdade do seu patrão. Realidade que nos coloca, como profissionais, na condição de escravidão que atinge a todos os trabalhadores brasileiros, conforme explica o sociólogo Jessé Souza no seu livro “A elite do atraso”. Talvez isso aconteça porque o jovem jornalista sonhou longamente em trabalhar numa grande grife jornalística, talvez porque o velho jornalista, premido pelas necessidades da sobrevivência, se resigne a conviver com o problema insidioso.

A realidade exposta por Paulo Zocchi sempre existiu ou faz parte do golpe de 2016?

Evidentemente, a internet criou uma situação que inexistia, a de o jornalista exercer sua liberdade de expressão em redes sociais, blogs pessoais etc., e atingir milhões de pessoas, muitas vezes público superior ao dos veículos em que trabalha. Antes, expressas apenas em rodas familiares e mesas de bar, as opiniões divergentes dos jornalistas não incomodavam os patrões, não podiam fazer frente à versão oficial, pública, publicada. Mas é verdade também que neste século as empresas jornalísticas assumiram mais francamente o papel de partido político da direita, estreitando os limites para opiniões divergentes dentro dos seus veículos. Isso é parte do golpe e se consolida com ele.

O fato é que, mais uma vez, um problema importante, ao ser analisado, revela como ele está enraizado na sociedade brasileira – na comunicação, nas empresas, no Estado, na ideologia. Para que a democracia avance no Brasil é preciso mexer em tudo. A ordem que temos hoje é uma deterioração do Estado que a Constituição de 1988 estabeleceu formalmente, tentando arranjar as diversas e conflitantes forças sociais que afloraram no fim da ditadura militar de 1964-1985, e que podem ser resumidas em dois grandes campos, o democrático e o liberal.

Não tenho dúvida de que o Brasil, como o mundo, avança em direção à democracia, mesmo porque o liberalismo já demonstrou, há um século, que suas consequências são guerras, revoluções, totalitarismo. A democracia, porém, parece vir muito devagar, e geração após geração só consegue ver parte dela, nunca o todo: o Estado democrático, organizado e estável. No qual, entre outras coisas, os jornalistas não são propriedade dos seus patrões e podem exercer a liberdade de expressão, fundamental ao exercício da profissão.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Qual é a única coisa que une os brasileiros e que o poder prefere esconder?

"Que idiota!" foi a expressão que me ocorreu ao ler o artigo abaixo.
Achar que o combate à corrupção é uma bandeira política nacional à essa altura da deterioração do país só mesmo um estrangeiro idiota. Ou será mal intencionado? E achar que a larva jato é uma cruzada contra a corrupção! Isso cabe num povo manipulado pela globoetc., mas não num jornalista de experiência internacional. A não ser que represente interesses estrangeiros que se apropriam do país desde o golpe.
Não vê, jornalista experiente, que Datafolha é para isso mesmo, sempre foi? A saber: fornecer pesquisas que embasem o conteúdo ideológico que a Folha propaga?
Não, o Brasil está dividido, sim, e o que pode uni-lo, como uniu a maioria na eleição de 2014, apesar de toda a manipulação da Folha e da Globo etc., é a redução de desigualdades, é a democracia. O combate à corrupção não está acima da democracia e muito menos é uma bandeira sincera da direita que derrubou o governo eleito.
E de uma vez por todas, ingênuo jornalista, quem esconde informações no Brasil não é (só) o poder, seja ele qual for, é (principalmente) a imprensa! E quem disse isso foi Roberto Marinho: "O Globo é importante pelo que não publica".


Juan Arias, 24 ABR 2018 - 11:39 BRT, El País.

Será verdade que, como injustamente se divulga no exterior, os brasileiros estão divididos em tudo? Que nada é capaz de unir os cidadãos de um lado e do outro do arco político? Há dois brasis irreconciliáveis em tudo? A julgar pelos resultados da última pesquisa nacional do Datafolha, a resposta é não.
De acordo com essa pesquisa, quem aposta em um Brasil dividido em tudo deve se sentir frustrado. Existe um tema que vem incendiando a opinião pública nos últimos anos e que se intensificou com a condenação e prisão de Lula: o apoio à Lava Jato, cuja continuidade é defendida por 84% dos brasileiros. Apenas insignificantes 12% acham que deve terminar. O Brasil todo parece unido na luta contra a corrupção e contra as tentativas de “estancar a sangria”, sonho de tantos políticos e poderosos e até mesmo de boa parte do Supremo Tribunal Federal. Entre esses 84% que querem que a Lava Jato continue estão, por exemplo, 77% dos eleitores de Lula, algo que o PT, que acusa a Justiça de ser seletiva com seu partido, deveria explicar, se de fato a grande maioria de seus eleitores também defende essa cruzada contra a corrupção.


Clique aqui para ler a íntegra no El País.

Coreias concordam em avançar para a “completa desnuclearização” da península

Outra boa notícia desta sexta. A pequena Coreia do Norte, tratada como o demônio pelos EUA e pela Europa (e sua imprensa, como El País), desistiu de destruir o mundo? Por que só a Coreia ameaça o mundo, com as bombas atômicas, se são os EUA que têm o maior arsenal, já jogaram bombas no Japão e fazem guerra em toda parte? Mistério da liberdade de imprensa.

Desconfio da paz, não por pessimismo, mas por experiência: onde o capitalismo leva a paz começa a guerra. Vide Iraque, Palestina, Síria, Afeganistão etc. Prevejo uma guerra, não nuclear, mas semelhante a estas outras, um conflito pelo qual o capital, os EUA, a indústria bélica e o crime organizado tentarão se impor.


Macarena Vidal Liy, Goyang (Coreia do Sul) 27 ABR 2018 - 10:58 BRT, El País. 

Os líderes das duas Coreias, Kim Jong-un (Norte) e Moon Jae-in (Sul), concordaram nesta sexta-feira, dia 27, em buscar “a completa desnuclearização” da península coreana durante a cúpula histórica realizada na fronteira entre os dois países. “O sul e o norte confirmaram seu objetivo comum de alcançar uma península livre de armas nucleares por meio da desnuclearização completa”, diz o comunicado assinado pelos dois líderes no final das negociações.

Os líderes dos dois países se reuniram em uma cúpula histórica na Casa da Paz do Sul, na zona desmilitarizada que separa os dois países tecnicamente em guerra. “Uma nova História começa a partir de agora. No momento em que começa uma era de paz”, escreveu Kim Jong-un, o líder supremo norte-coreano, no livro de honra. As portas do pavilhão Panmunjak foram abertas às 9h28 (21h28 hora de Brasília) para o líder norte-coreano, que chegou vestindo um terno risca de giz. Com rosto sério e acompanhado de uma grande comitiva de funcionários e guarda-costas, Kim desceu a escada que leva à linha de demarcação militar, o marco de cimento que separa as duas Coreias na Área de Segurança Conjunta. Lá, entre as cabines azuis reservadas para conversas militares, e do outro lado da fronteira, Moon esperava por ele. Imediatamente, os rostos tensos se transformaram em sorrisos.

Clique aqui para ler a íntegra no El País.

Justiça peruana ordena libertação do ex-presidente Humala e de sua esposa

As surpreendentes boas notícias desta sexta-feira. Peru dá lição democrática ao Brasil. 

Jacqueline Fowks, Lima 26 ABR 2018 - 21:08 BRT, El País.    

O ex-presidente do Peru Ollanta Humala e a ex-primeira-dama Nadine Heredia, em prisão preventiva em Lima desde julho de 2017, serão libertados. O Tribunal Constitucional aceitou um pedido de habeas corpus apresentado pela defesa dos políticos, segundo informou nesta quinta-feira o presidente da Corte, Ernesto Blume.
Ano passado, o juiz Richard Concepción Carhuancho ordenou a prisão preventiva durante 18 meses para ambos, a pedido do Ministério Público, que os investiga por lavagem de dinheiro e organização criminosa, em razão das contribuições ilegais que receberam nas campanhas eleitorais de 2006 e 2011. Os fundos provinham sobretudo da construtora Odebrecht, envolvida em casos de corrupção em toda a América Latina.

Clique aqui para ler a íntegra no El País.

Marielle e a democracia

Marielle era brilhante (continua brilhando em vídeos).
"Cuida de quem? Do empresário ou do morador da favela?", diz sobre o prefeito do Rio eleito com os votos da favela e governando para os donos de ônibus.

A gente precisa entender como é que a direita se apropria das bandeiras da esquerda. A democracia, principalmente. A campanha do impeachment foi feita em nome da democracia! Derrubar a presidenta eleita pela maioria foi propagandeada como defesa da democracia.
Os golpistas foram para as ruas com as cores e a bandeira nacional. E o golpe está destruindo o Brasil e entregando as riquezas nacionais para as multinacionais.
A é contra o povo, mas faz o discurso a favor do povo.
E a esquerda? Foi para as ruas com a bandeira do PT e com a cor vermelha. O que possibilita que seja identificada com um partido já condenado e com uma cor de "comunistas".
A direita marca a esquerda como uma parte (comunistas, baderneiros, vagabundos etc.) que está contra o todo (o Brasil, os honestos, os que trabalham e produzem etc.).
Por que a esquerda não se apropria das cores nacionais? Por que não defende a democracia? Por que não faz a disputa das ideias, dos valores, dos símbolos? Por que não demonstra na prática que é ela quem é o que a direita diz que é, e que é a direita que é o que diz que a esquerda é?
Por que a direita é competente na disputa ideológica e a esquerda é incompetente?
Marielle tinha uma nova consciência, lúcida, prática, da experiência, sincera, popular.

Na onda dos anos 70 e 80, do acaso da ditadura, o PT irrigado pela igreja católica progressista, das comunidades de base, nas favelas, nos bairros pobres, nas periferias. Agora as comunidades pobres estão tomadas pelas igrejas evangélicas, que são predominantemente de direita. Como isso aconteceu? A esquerda precisa fazer a disputa com as igrejas evangélicas, precisa ser uma alternativa melhor para os pobres, precisa mostrar que os desejos dos pobres virão com a democracia e não a ideologia (teologia) da prosperidade. Mas para isso precisa ter uma prática coerente e um programa concreto de governo. O que a esquerda quer? Não é o socialismo utópico dos marxistas (!), é a democracia, com igualdade, liberdade, respeito.